“Os infelizes são ingratos, e isso faz parte da infelicidade deles".

 Victor Hugo


Marcos Bagno: "Fascismo da língua é a imposição de um modo de dizer do qual ninguém pode escapar". (Foto: Poliana Alves)
A língua é fascista?

Marcos Bagno -

Algumas frases ganham vida própria, geralmente arrancadas do contexto em que foram escritas e, por isso mesmo, distorcidas em seu sentido. Uma delas é “minha pátria é a língua portuguesa”, erradamente atribuída a Fernando Pessoa.

Erradamente porque essa frase está no Livro do Desassossego, de um de seus muitos heterônimos, Bernardo Soares. Essa frase faz parte de um texto de delirante reacionarismo, da mais pura alienação política e cultural.

É uma rotunda bobajada.Ninguém se dá ao trabalho de ler o texto todo e sai repetindo a frase solta como se fosse coisa linda, mas não é.

Outra frase atribuída a Pessoa, “navegar é preciso, viver não é preciso”, é um equívoco ainda pior, porque se trata de um velhíssimo provérbio latino, “navigare necesse, vivere non est necesse”, que os romanos por sua vez importaram dos gregos!

Antes de sair citando, minha gente, vamos ver quem disse o quê, onde e quando?

Outra dessas frases enxovalhadas é a que aparece na Lição (1978) do ensaísta francês Roland Barthes (1915-1980): “a língua é fascista”.

E toca a tentar arrancar dela as interpretações mais escalafobéticas! Que a língua é sexista, é machista, é racista, é perigosa, é opressora... quem dá mais?

Ora, bolotas, o que Barthes quis dizer é que a língua, como estrutura, como sistema, obriga seus falantes a dizer as coisas sempre de um determinado modo e não de outro.

Por exemplo: nas línguas que têm a categoria gramatical de gênero, como o português, é impossível usar uma palavra sem imediatamente fazer todas as concordâncias com seu gênero gramatical.

Se pensarmos em “lua”, temos de usar “a”, “essa”, “uma” ou “cheia”, “redonda”, “ela”, tudo no feminino. Em alemão, porém, “lua” se diz “Mond”, e é do gênero masculino.
O falante de alemão é obrigado a usar também todas as concordâncias no masculino.

Já o falante de inglês, língua que não tem a categoria de gênero, não precisa se preocupar com nada disso.

Assim é que a lua, por exemplo, num desenho animado em inglês, pode ter um nome de homem ou de mulher, ter uma voz masculina ou feminina.

Por isso também um filme pútrido como O Fada dos Dentes tem um homem, um (péssimo) ator no papel principal, coisa que dificilmente ocorreria se o filme tivesse sido produzido numa língua em que fada só pode ser do gênero feminino.

Mas esse filme tem um precedente ilustre, William Shakespeare, ninguém menos: em sua peça Sonho de uma noite de verão, as fadas têm um rei, Oberon, que, por sua vez, é servido por Puck, ambos caracterizados como homens.

Até mesmo os anjos, que supostamente não têm sexo, recebem nomes de homem (Gabriel, Rafael, Miguel etc.), porque a palavra grega ággelos, origem do latim ángelus, é masculina e o termo hebraico que ela traduz se referia sempre a entidades masculinas.

Esse é o “fascismo” da língua: a imposição de um modo de dizer do qual ninguém pode escapar.

Isso se reflete em todos os níveis do sistema: em português, somos obrigados a colocar a marca de plural sempre no final dos nomes (casa, casas), mas em quimbundo a marca de plural vem na frente dos nomes (rimbondu, “vespa”; marimbondu, “vespas”). E você, que amaldiçoa os marimbondos, nem sonhava com isso, não é?

Cada falante de cada língua recebe seu idioma já pronto e acabado quando o adquire por meio do convívio social.

É claro que as línguas mudam com o tempo, ou melhor, os falantes mudam a língua com o tempo, mas essas mudanças são lentas e muitas vezes imperceptíveis, de modo que cada falante, em sua vida, está submetido ao “fascismo” sistêmico da língua que fala.

Nada a ver com o fascismo de verdade que está sendo institucionalizado a passos largos no Temeristão, com o auxílio nada luxuoso do tucanato instalado no judiciário!

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