"A educação sozinha não transforma a sociedade,

sem ela tampouco a sociedade muda."

Paulo Freire


"El sueño del lector", escultura de Pablo Irrgang, de 2016.
Contra a censura às artes, resistamos!

Maria Lúcia Verdi -

Retorno a Buenos Aires após três anos. Cansada do Brasil, apenas saio para o hall do aeroporto e escuto uma música alta que é como um pesadelo - uma dessas músicas de um certo nosso pop atual, que ouvimos aqui por todo lado. Pelas portas abertas dos carros a vulgaridade chega até nós e mesmo no exterior nos persegue.

À minha frente, um rapaz com uma camiseta onde leio "?Donde está Maldonado?", pergunta que vai me acompanhar a toda parte, escrita em todos os lados, de todas as formas.

Um jovem tatuador que se uniu aos mapuches num protesto contra a Benetton e "desapareceu" está causando mais uma grave polêmica - quem é responsável por sua morte? A Argentina já tem demasiados desaparecidos, demasiadas perguntas sem resposta. Alguma semelhança com o que acontece por aqui?

Após o primeiro almoço - restaurante de classe média num bairro onde isso seria quase impensável há alguns anos - vou ao banheiro e leio num cartaz: Preservativos - Solicitar en el sector de caja. É bom que a argentina católica e judia (mas felizmente também materialista e intelectual) aceite que tal aviso lá esteja.

Num parque de Belgrano, ao lado de Palermo, uma cabeça enorme me impacta. Numa cidade de inumeráveis esquinas, cidade que Borges em algum texto chamou de interminável, os espaços abertos dos parques de Palermo são vitais - que hajam instalado uma cabeça num vasto espaço vazio me parece genial. Cada vez mais precisamos do vazio e do silencio para pensar.

Paramos o carro, vejo, leio e fotografo a "El sueño del lector", escultura de Pablo Irrgang, de 2016. O Sonho do Leitor é uma enorme cabeça de homem com olhos fechados e expressão encantada onde há uma porta fechada e, ao lado, um banco escavado no pescoço do Leitor.

No banco as pessoas podem sentar e ouvir importantes trechos, muito bem gravados, da grande literatura argentina. A porta fechada será aberta com a leitura, com a escuta, presenças constantes nessa, ainda, Cidade de Letrados.

Há detalhes esculpidos que remetem à história argentina, ao pampa, e, como não poderia deixar de ser, homenageia Borges, aquele que dizia ter muito mais orgulho do que havia lido do que do que havia escrito: "Un hombre se propone la tarea de dibujar el mundo. Poco antes de morir descubre que ese paciente laberinto de lineas traza la imagen de sua cara."

Perto dali o, para mim imperdível, Bairro Chinês. Reencontro nas quinquilharias à venda a frenética China que tanto conheço. Todos compram, todos comem a boa e barata comida num momento de crise econômica, social e política, semelhante à nossa. Pró PT X Contra PT, lá Pró Kirchner X Contra Kirchner.

Cristina Kirchner teve a astúcia de criar o fantástico Centro Cultural Kirchner no antigo prédio dos Correios, uma enorme construção que foi reformada por um competentíssimo estúdio de arquitetos de La Plata.

Ficou mais bonito do que o Beaubourg em Paris, tendo uma sala de concertos, a Baleia Azul, que é o sonho de qualquer músico ou orquestra, acústica perfeita desde qualquer parte. E, por incrível que pareça, os enormes espaços do CCK apresentam mostras e oferecem cursos de todo tipo, concertos e teatro gratuitamente a uma população sabidamente ávida por cultura. Cultura de graça.

Seja no CCK que em muitos outros espaços culturais da cidade está a Bienal Internacional de Arte Contemporâneo de América del Sur, um projeto idealizado pela Universidad Tres de Febrero, que tem a participação essencial, indispensável, do verdadeiro motor de produção cultural que é Marlise Ilhesca, brasileira casada com o Reitor da Tres de Febrero. Um esforço de 16 países, presente em 32 cidades, com a participação de 350 artistas.

Fui a todos os espaços que pude, sempre me surpreendendo pelo direcionamento da Bienal, profundamente política e empenhada com as questões primordiais do meio ambiente e dos direitos humanos.

No dia da visita ao PROA, espaço fundamental para a arte contemporânea, que fica no tradicional bairro de imigrantes, a Boca, o bairro comemorava seu aniversário.

O povo dançava e cantava, a maioria "cabecitas negras", como a elite portenha denomina os não absolutamente brancos. A bela ponte do bairro exibia as cores do famoso time de futebol e eu via pelas ruas, como em toda a cidade, muitos "homeless" como eles estão chamando os sem teto, em inglês.

A mostra em exibição no PROA, "Manifesto", foi o melhor de tudo o que vi. Uma instalação genial do artista alemão, Julian Rosefeldt, composta por treze videos, cada um com dez minutos, onde se vê a atriz Cate Blanchett interpretar trechos dos manifestos mais importantes do século XX, desde o Manifesto Comunista aos das vanguardas dos anos sessenta.

As cenas idealizadas por Rosefeldt para as impressionantes interpretações da atriz australiana são absolutamente impactantes, surpreendentes, irreverentes etc.

Cito apenas uma: um velório numa casa rica, no meio de uma propriedade abastada, o cortejo até o espaço onde será sepultado o morto, a viúva Blanchet que sobe a um púlpito para fazer o tradicional discurso e o que ela nos diz é o texto manifesto Dada. Absolutamente genial e necessário vermos o que dizem esses Manifestos.

Foi muito forte visitar Buenos Aires e ver, ouvir, sentir tudo o que está acontecendo e pulsando nesse país tão contrastante, tão intenso, onde vivi quase nove anos, tendo presenciado o sofrimento da Guerra das Malvinas, bem como a esperança que foi Raul Alfonsin.

Andar de ônibus e metrô e ainda ver gente lendo, apesar dos celulares;  assistir ao belíssimo "Zama", último filme da diretora cult Lucrecia Martel, inspirado no impressionante romance do mendocino Antonio Di Benedetto (literatura em altíssimo grau, que vai desafiar o tradutor brasileiro) - mais uma vez confirmar a criatividade argentina em todas as áreas, a combatividade que não se rende às restrições econômicas e segue produzindo oficinas, seminários e palestras de todo tipo, em todos os âmbitos, tudo me tocou profundamente.

Que não deixemos o horror atual impedir a produção de cultura, que não aceitemos os que ilegitimamente querem nos cercear. Resistamos!

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